segunda-feira, 27 de julho de 2009

Foi um Fito Paez que passou em minha vida*



No dia 14 de maio fui contemplar, no Teatro do Sesi, a apresentação do cantor-poeta-artista Fito Paez. Sempre nutri uma profunda admiração por esse desbravador da alma humana. Contudo nunca havia tido a possibilidade de vê-lo tocar ao vivo. Eis, então, que o tão sonhado dia chegou...
Desde criança sou apaixonado pela cultura portenha, em especial a argentina. Tudo começou pelo futebol - um dos meus vícios. Enquanto que o Brasil todo chorava e lamentava o pênalti desperdiçado por Zico, defendido pelo goleiro Bats, no decorrer do tempo regulamentar da partida das quartas-de-finais contra a França, em jogo válido pelo Mundial de 1986, disputado no México, eu encantava-me com a genealidade destemida de um baixinho. Seu nome: Diego Armando Maradona. Ou simplesmente, Maradona.
Com muita raça e garra, aliadas a um talento descomunal, Maradona e seus companheiros de equipe - o capitão Ruggieri, o volante Batista, o velocíssimo Burruchaga, o aguerrido Cuciuffo, o destemido Olarticochea, entre outros - sabiam que representavam uma nação em busca de um orgulho ferido. Vencer esse Mundial significava bem mais do que um feito no mundo futebolístico. Significava, na verdade, o resgate de uma dignidade rompida por uma brutal guerra contra a prepotência política-econômica européia, representada pela rigidez britânica.
Na partida das semifinais contra a forte Inglaterra do goleador Lineker, a entrega argentina prevaleceu sobre a prepotência inglesa. Quando maradona fez o inesquecível gol, "batizado" pelo próprio como mano de Dios, uma emoção avassaladora tomou conta do meu corpo. A entrega, o destemor e a eloqüência, às vezes desproporcional, daqueles atletas ficaram pra sempre gravados em meu ser. Malvinas ressurgia nos olhares daqueles onze bravos guerreiros, que com muito empenho "afundaram" a soberba britânica. Os gélidos ingleses sentiram na pele o sangue latino de um povo que jamais se entrega, mesmo nas adversidades. No campo quente de Guadalajara o poderio europeu tombava moralmente perante onze atletas não só de fibra, mas também de epiderme e coração.
Posto isso, vocês devem estar se perguntando o que tudo isso descrito acima tem haver com o show do Fito Paez. Devo confessar-lhes que as emoções sentidas por mim durante aquele Mundial voltaram com tudo. Lá estava eu, hipnotizado por um Fito que cantava com a alma. Um Fito que apaziguava meu coração com sua maneira suave de se expressar. Um Fito que, assim como Maradona, empunha uma vontade de poder capaz de fazê-lo estremecer por dentro. Um Fito visceral capaz de assolar todos os teus sentidos.
Fito Paez personalizou o amor em cada gesto, em cada palavra e em cada canção de seu repertório. Da mesma forma que o futebol argentino, Fito é intenso, potente, hábil e inteiro. Pois assim foi seu espetáculo músico-teatral. Assim é que deveríamos viver.
Fito e Maradona, cada qual com sua arte, fizeram-me sonhar novamente. Mostraram-me que na vida a preservação é determinante para a extinção. Apesar dos pesares, não se envergonharam de escracharem, um no palco, outro na grama, suas vidas.
Portanto, povo da Junção, não tenham medo de vivenciarem os acontecimentos de uma forma intensa. Vivam suas paixões arrebatadoras, seus amores avassaladores, seus encontros, seus desencontros como se fossem uma final de Copa do Mundo. Não receiem ser chamados de utópicos, pois a ferida já está aberta e o sangue que escorre é o mesmo que pulsa nas veias de uma América Latina oprimida, cansada de tantas injustiças sociais e explorações econômicas. Este texto não é uma apologia a uma revolução social, muito menos um movimento neo-cheguevariano; tampouco quer ser um texto partidário-político ou algo do gênero. Na verdade, tal texto quer estar implicado com uma ética e estética que contemplem a vida em todos os seus sentidos, potencializando-a em cada coração afetado pela ânsia de viver.

*Texto feito em maio de 2005.

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