terça-feira, 13 de outubro de 2009

Jugar a morir [Jogo 34 - 13/10/2009]

AZUL/PRETO 5X7 AMARELO

Gols:
Azul/Preto: Alex; Charles; Erlon [4º, 12º]; Danilson [3º, 7º]; Vander; Diogo [1º]
Amarelo: Vilnei; Marcelo [8º]; Felipe [5º, 10º, 11º]; Fabrício [2º, 6º]; Fábio; Veni [9º]

Amanhã, 14 de outubro de 2009, jogam em Montevideo, valendo vaga para o Mundial de 2010 na África do Sul, Uruguai e Argentina. Jogam, não; travam uma batalha campal, na qual somente a vitória interessa para ambos esquetes. Quem ama futebol aguerrido, jogado não somente com o coração mas - e principalmente - com as vísceras, tem a obrigação, o dever de estar colado na frente da televisão.
Uruguai e Argentina é, sem sombra de dúvida alguma, o maior e melhor clássico entre seleções de todo o mundo. É uma guerra travada às margens do Rio da Prata. Amanhã será um jogo para corpos e mentes bravas e destemidas. O planeta irá tremer e se render aos carrinhos, cabeçadas divididas e tudo mais que faz do futebol competitivo o pesadelo do futebol arte. Que venham a tombar em campo, como heróis platinos e celestes, os verdadeiros libertadores da América, berço do futebol mundial, que não aceita outro idioma que não o espanhol. Argentina x Uruguai, Platinos x Charruas, somente um seguirá vivo, literalmente vivo, pois o outro, como manda a lei do verdadeiro futebol - aquele jogado na lama, na chuva fina e fria do extremo sul - irá cair esgotado e acabado mas digno que peleou até o último segundo de partida, pois jogou a morrer.


Seria uma gafe, uma injustiça, um deslize, uma injúria, uma falácia de minha parte afirmar que hoje tivemos na Junção uma partida digna da grandeza de Argentina x Uruguai. Jogo como este jamais pode ser comparado com qualquer outro embate do futebol. Portanto, mesmo cometendo tamanha heresia, tangencio o clássico desta noite como algo que pode, quiçá, beirar, contornar o maior choque futebolístico da Terra. Tivemos, hoje, uma partida com ares platino, na qual jogar não era preciso, mas guerrear, sim, era vital. Jogamos a morrer pela nossas pátrias, personalizadas em trajes de combate azul e preto e amarelo. Duelamos em linhas e táticas de guerrilha; de peitos abertos nos atiramos ao combate. Brigamos por cada gomo de bola, por cada gota de suor que escorria por entre nossos corpos por pouco não ensanguentados (isso somente platinos e celestes fazem) mas cicatrizados por hematomas e fadigas. Depois de hoje afirmo sem receio algum que posso partir em paz, melhor, em guerra. Meu corpo - e de meus queridos combatentes também - expuseram-se a todo tipo de mazela que é estar em uma batalha campal. Após longos jogos de Carnaval (entenda-se: jogos tropicais, regidos pela firula e propagada arte - só não sei que arte é essa) finalmente voltei a respirar e ame sentir vivo futebolisticamente de novo. Creio que a aproximação do jogo de amanhã fez com que todos, sem exceção, que estavam nesta partida entrassem em transe, num agenciamento coletivo aguerrido, com artérias pulsantes de desejo eloquente de um jugar a morir. Hoje - e me perdoem a emoção e a pieguice, se assim alguém considerar - a Junção renasceu em meu peito amargurado. Lembrei-me do Cristiano, o Loco, e de seus grandiosos carrinhos; do Roberto, o Beca, nosso eterno xerife com seus gritos de incentivo; do Jairo, o ou o Vallejo, e seu determinado e certeiro faro de gol; do Ricardo, El Carniça, o nome sanguinário já diz tudo, o único careca num time de cabeludos, e sua arrojada técnica objetiva; do Jairo, o n+1, que há pouco nos deixou, e sua eterna paixão ao futebol pegado e de garra. Nostálgico e fortalecido fiquei ao ver Vilnei defendendo (e catimbando) como um Amadeo Carrizo; Marcelo se jogando aos pés dos adversários como um legítimo Sensini; Fabrício encorporou Pochetino, batendo e jogando muito; Veni lembrou a técnica portenha de Chamot, atuando pela lado esquerdo da quadra, e Felipe foi tosco, lutador e goleador tal qual Palermo. Do outro lado, digamos do lado charrua, presenciamos Alex atuando como Rodolfo Rodriguez; Charles peleando tal qual Héctor Scarone; Erlon assumindo pra si a responsabilidade de um Rubén Sosa; Vander comandando a zaga com inspiração em Daryo Pereira; Diogo tendo como referência pela ala Jonathan Urretavizcaya, e Danilson um legítimo atacante do quilate de um Enzo Francescoli. Dessa forma, lutamos até o fim. Até as fibras de nossos músculos não suportarem mais e, destroçadas, renderem-se ao cansaço e a dor de se estar vivo. Vilnei foi o nome do jogo. Fez mais do que defesas; operou milagres. Num destes voou no ângulo superior esquerdo para espalmar pra escanteio um petardo de Vander. Uma defesa que por muito tempo não sairá de nossas retinas. Fora esta, outras defesas e intervenções praticou, tornando-se incontestavelmente, sob todos os aspectos possíveis, um goleiro portenho. O que falar do quase sempre contestado Fabrício? O que jogou este ala foi sensacionalmente edificante. Marcou e bateu muito (Charles que o diga), além do que marcou três gols e deu passe para mais outros dois. Superação foi sua palavra nesta partida. Marcelo foi outro gigante, salvando a defesa amarela. O time, como um todo, realizou um trabalho coletivo excepcionalmente argentino, com muita marcação e saídas rápidas ao ataque. O Az/Pr, por sua vez, tentou mas não conseguiu ser tão eficiente quanto seu oponente. Erlon fez um primeiro tempo muito bom. Charles, raçudo como de costume, foi destemido ao enfrentar a zaga adversária a todo momento. Danilson, bem marcado, pouco conseguiu. Alex defendeu o que pôde, sempre seguro e tecnicamente eficaz, pena que sua defesa não conseguiu frear o ataque amarelo.
Diogo [1º], antecipando-se a Veni, roubou a bola deste na intermediária, avançou um pouco mais e bateu forte e cruzado para vencer Vilnei e abrir o placar em 1x0. Foi então que Fabrício [2º] começou a mostrar sua indignação. Num chute cruzado deixou tudo igual: 1x1. Depois veio a falhar na marcação numa cobrança de escanteio na qual Danilson [3º], entrando pelo meio da área, venceu Vilnei, deixando em 2x1 o escore.
Em ritmo acelerado seguiu o embate. As marcações eram ferrenhas e, por vezes, vorazes. Veni, Charles e Felipe saíram sofreram muito nos choques. Melhor para Erlon [4º] que, ao aproveitar vacilo da defesa, tabelou com Danilson e marcou 3x1.
A peleia estava recém começando. Pelos poros escorriam suores de volúpias portenhas e charruas; a quadra virou um potreiro (nome dado aos campos acanhados e esburacados do interior argentino e uruguaio) e os atletas dignos combatentes. O Amarillo, com muito empenho, foi buscar o empate ainda no primeiro tempo. E conseguiu. Em chutaço do meio da rua de Fábio, a bola explodiu no travessão de Alex, bateu em cima da linha e ao voltar sobrou para Felipe [5º] tocar, dividindo com pés, ombros e cabeças alheias, de cabeça para as redes: 3x2. Em seguida, quase no final desta etapa, em passe lateral de Marcelo, Fabrício [6º] acertou o pé e mandou Alex buscar no fundo de sua goleira os resquícios de uma bola. Golaço! Era o empate amarelo em 3x3.
Na etapa final, o Amarelo foi impecavelmente sólido. Defendeu com pés, carrinhadas e pernas sua vitória. Apesar de toda pressão azul nos últimos dez minutos, os amrelos não se entregaram; em verdade, fizeram de sua resistência sua maior vitória.
Em tabela com Charles, Danilson [7º] tocou e recebeu na medida para, de primeira, fuzilar Vilnei: 4x3.
No entanto, Danilson também errou. Ao dar um passe para trás, entregou a bola nos pés de Marcelo [8º] que, sem cerimônia alguma, tocou na saída de Alex, deixando empatado em 4x4 o clássico.
Num contra-ataque puxado por Fábio, Fabrício serviu a Veni [9º] na medida para este fuzilar Alex: 5x4. Na sequência, em dois bonitos gols, o Amarelo praticamente garantiu sua vitória. No primeiro, em tabela magistral e portenha, entre Veni, Fabrício e Felipe [10º], este recebeu passe certeiro, e, bem colocado como um legítimo artilheiro deve estar, apenas empurrou para as redes adversárias: 6x4. No segundo lance, Felipe [11º], num devir Palermo, ficou com a sobra do chute de Fabrício e, de calcanhar, no meio da confusão, apenas desviou de Alex: 7x4.
De tanto pressionar, o Az/Pr marcou seu quinto gol. Erlon [12º] recebeu passe pelo meio e chutou forte, indefensável para Vilnei.Depois, numa pressão infernal, o Az/Pr tentou de todas as maneiras o empate; contudo quando não era uma perna, um pé, um corpo amarelo a se jogar a morir na bola, eram as mãos e a disposição portenha de Vilnei a evitar o gol inimigo.
Foi uma vitória, mais do que amarela, da Junção. A Junção está viva outra vez. Pulsante e raçuda seguirá se imortalizando nas entranhas de nossos corpos num imediatismo sem fim. Não foi um Uruguai x Argentina, porém foi a evidência de uma imortalidade sempre aguerrida e disposta a por tudo em jogo, inclusive a própria vida.

2 comentários:

  1. NOTAS DO JOGO :
    VILNEI 8,05
    MARCELO 7,35
    FABRÍCIO 7,15
    VENI 6,95
    FÁBIO 6,85
    FELIPE 6,55
    ERLON 6,55
    DANÍLSON 6,50
    ALEX 6,50
    DIOGO 6,20
    CHARLES 6,05
    VANDER 6,00

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  2. Essas notas acho que devem ser enf. no ....

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